sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A POESIA DE JOSÉ CHAGAS



QUANDO ENCONTRO

A POESIA DE JOSÉ CHAGAS


Antonio Aílton


Eu gostaria de dar a este texto o tom bem humano de quem se coloca diante de uma realidade, neste caso diante da realidade poética de José Chagas, não com o olhar impassível de quem observa um objeto, mas com o olhar de quem se depara com um mundo conhecido-desconhecido, uma geografia da qual já fazemos parte antes de a descobrir. Como evitar falar de poesia sem uma pontinha de impressionismo? Como não admitir o óbvio? Como não admitir o gosto? Como descobrir o novo senão por tentativa e erro? E, afinal, só podemos falar de um grande poeta como José Chagas se descobrirmos o novo?...

            Assim, fui gaguejando os títulos em busca das re-velações dessa poesia:

“Chagas: geografia poética da mediação”,

ou: “A experiência do encontro na poesia de José Chagas”;

“Chagas: uma poética do (des)encontro”.

“CHAGAS, cronotopia de entre-mundos”

 Ou ainda: “A cronotopia poético-existencial de José Chagas”.

            Assim, uma janela se abre, um mirante na linguagem e, enquanto escava o querer-dizer, enquanto traz lembranças e memórias, vai iluminando o ser dessa poesia: MEDIAÇÃO, ENCONTRO, CRONOTOPIA, ou talvez, “topocronia”. Vou re-encontrando este poeta, de novo, este poeta já tão lido por mim e tão desconhecido, já tão assimilado e tão surpreendente a cada nova leitura.

           

                                    um rio em si mesmo se afoga

                                                seca em suas areias

                                                a vontade de mar

                                                                                                (Os Canhões do Silêncio”, 1979)


            Chagas, homem nascido no sertão da Paraíba (Santana dos Garrotes - Piancó, Paraíba, 1924), vem desaguar nos beirais do mar. O poeta Chagas, que antes de chegar a São Luís, demora em Teresina e no Vale do Mearim,  carrega no corpo a voz do trabalho com a terra para esse encontro que se dá entre duas instâncias primordiais: seu corpo telúrico e seu universo de lavoura e vaquejadas para estas habitações de pedra com cheiro de mar e óleo de baleia.

            O homem do sertão nasce com o verso na boca, mas o verso representante daquele mundo que guarda o sopro medieval: versos da literatura de Cordel. Ora, o sertão nordestino, com seus feudos, suas jagunçagens, seus herdeiros de campesinos severinos e miseráveis, que conclamam o luar por socorro, ou de coronéis mandões, os senhores, que encontram nos desmandos seu bel-prazer; este sertão sebastianista e supersticioso, foi terreno fértil de preservação, por séculos, dos cancioneiros orais medievais, dos desafios de cantadores e fantásticas narrativas cantadas em martelos e redondilhas. É dessa terra que sai José Chagas para vir encontrar-se em outra terra, de poetas, de uma cultura dita erudita, de sabiás que cantam em versos heroicos e alexandrinos.

            Que posso falar disso, eu também de famílias de sertanejos, nascido no Vale do Mearim, leitor e ledor da literatura de cordel para os ajuntamentos de pessoas em volta de uma lamparina? Que a poesia vence, e sobrevive... Que temos aí um encontro, encontros: de geografias, de linguagens, de humanidades. Esse homem curvo carrega nos ombros o peso dos mapas traçados que, graças a Deus, desembocaram neste mar da linguagem, nessa fonte, a poesia.

            Poesia, essa de Chagas, que vem instaurar o topos do imaginário ludovicence e se constituir numa das grandes vertentes da poesia maranhense atual, juntamente com a poesia mais subjetiva e visceral de Nauro Machado, a poesia do cotidiano social de Ferreira Gullar e outras tendências, digamos, contemporâneas/experimentais.

Ou seja: essa vinda não foi gratuita. O poeta, com suas vivências e experiências e seu encontro fascinante, carregando uma outra “fôrma”, vem tornar-se o fundador de uma poética, abrir as janelas do não-visto ou não cantado para criar um outro olhar do maranhense sobre seus próprios telhados, sobre os canhões do silêncio que explodem secularmente no tempo da cidade, mas que ninguém ainda fez bradar, não com a mesma rima, não com o mesmo empenho.

            A poesia de José Chagas vem repor, pelo imaginativo poético, a geografia imaginária que nos falta, a percepção das entranhas da cidade, de sua arquitetura e população, de seu desterro no tempo, de seus bichos, gatos, ratos, baratas, esse convívio universal que os compêndios de história e da mitologia da cidade não pode mostrar, porque inscrita numa linguagem outra, não a linguagem que une o centro do olho ao centro da alma.

           

            O encontro proposto na poesia de Chagas, por outro lado, não é apenas um encontro de formas poéticas e de experiências de vozes e espaços diferentes. Não é tampouco a instauração de uma paisagem poética, figurativa ou pitoresca. É a densidade do corpo humano e do dizer humano mais profundo e radical  mediando uma cronotopia, isto é, a junção o tempo e do espaço. Cronotopia não (apenas) naquele sentido proposto Bakhtin, como característica de toda arte, mas no sentido de que o poeta tenta recuperar o arcaico inscrito na cosmologia da cidade para fazê-la soprar os anseios, as vozes perdidas do que ela conserva do tempo, dos seus becos e telhados que fazem o homem questionar o sentido de sua própria existência, sua condição primordial.

            Eis por que o poeta, em sua poesia mais recente, nos lança um lamento reflexivo e dolorido, quase amargo, sobre o estado da cidade que o recebeu, São Luís do Maranhão:

                       

Patrimônio de quem? De ti, de mim?

                                Patrimônio de toda a humanidade

                                Herança de barata, de cupim?

Ou chão que a própria história desinvade(...)?

(Os Azulejos do Tempo – Patrimônio da humana idade, 1999)

Ou, em outro poema:


Preciso é que se pense São Luís,

e não viver só de memorizá-la,                             

que ela não é somente o que se diz,

mas o que oculto está por traz da fala

(idem)

A poesia de José Chagas vem sublimar essa cidade e transformá-la numa outra realidade além da que contemplamos. O poeta, para utilizar uma palavra da moda, do jargão economista, veio “agregar valores” a esta cidade que nem sempre reconhece esse papel fundamental empreendido culturalmente por todos os seus poetas, pela gente que a canta de todas as formas, do mais humilde ao mais letrado, tornando-a, pelo encanto e pelo trabalho da poesia, uma cidade outra, que ressoa em nós.

Vemos, assim, na poesia de José Chagas, um lugar profundamente humano, um lugar povoado, um bairro, uma cidade quadricentenária poeticamente erguida, e às vezes a solidão do poeta, ao pé de cujo mirante podemos nos assentar sem dizer palavra, apenas com a boa sensação de tê-lo encontrado.

A POESIA DE JOSÉ CHAGAS


QUANDO ENCONTRO

A POESIA DE JOSÉ CHAGAS

 

Antonio Aílton

 

Eu gostaria de dar a este texto o tom bem humano de quem se coloca diante de uma realidade, neste caso diante da realidade poética de José Chagas, não com o olhar impassível de quem observa um objeto, mas com o olhar de quem se depara com um mundo conhecido-desconhecido, uma geografia da qual já fazemos parte antes de a descobrir. Como evitar falar de poesia sem uma pontinha de impressionismo? Como não admitir o óbvio? Como não admitir o gosto? Como descobrir o novo senão por tentativa e erro? E, afinal, só podemos falar de um grande poeta como José Chagas se descobrirmos o novo?...

            Assim, fui gaguejando os títulos em busca das re-velações dessa poesia:

“Chagas: geografia poética da mediação”,

ou: “A experiência do encontro na poesia de José Chagas”;

“Chagas: uma poética do (des)encontro”.

“CHAGAS, cronotopia de entre-mundos”

 Ou ainda: “A cronotopia poético-existencial de José Chagas”.

            Assim, uma janela se abre, um mirante na linguagem e, enquanto escava o querer-dizer, enquanto traz lembranças e memórias, vai iluminando o ser dessa poesia: MEDIAÇÃO, ENCONTRO, CRONOTOPIA, ou talvez, “topocronia”. Vou re-encontrando este poeta, de novo, este poeta já tão lido por mim e tão desconhecido, já tão assimilado e tão surpreendente a cada nova leitura.

           

                                    um rio em si mesmo se afoga

                                                seca em suas areias

                                                a vontade de mar

                                                                                                (Os Canhões do Silêncio”, 1979)

 

            Chagas, homem nascido no sertão da Paraíba (Santana dos Garrotes - Piancó, Paraíba, 1924), vem desaguar nos beirais do mar. O poeta Chagas, que antes de chegar a São Luís, demora em Teresina e no Vale do Mearim,  carrega no corpo a voz do trabalho com a terra para esse encontro que se dá entre duas instâncias primordiais: seu corpo telúrico e seu universo de lavoura e vaquejadas para estas habitações de pedra com cheiro de mar e óleo de baleia.

            O homem do sertão nasce com o verso na boca, mas o verso representante daquele mundo que guarda o sopro medieval: versos da literatura de Cordel. Ora, o sertão nordestino, com seus feudos, suas jagunçagens, seus herdeiros de campesinos severinos e miseráveis, que conclamam o luar por socorro, ou de coronéis mandões, os senhores, que encontram nos desmandos seu bel-prazer; este sertão sebastianista e supersticioso, foi terreno fértil de preservação, por séculos, dos cancioneiros orais medievais, dos desafios de cantadores e fantásticas narrativas cantadas em martelos e redondilhas. É dessa terra que sai José Chagas para vir encontrar-se em outra terra, de poetas, de uma cultura dita erudita, de sabiás que cantam em versos heroicos e alexandrinos.

            Que posso falar disso, eu também de famílias de sertanejos, nascido no Vale do Mearim, leitor e ledor da literatura de cordel para os ajuntamentos de pessoas em volta de uma lamparina? Que a poesia vence, e sobrevive... Que temos aí um encontro, encontros: de geografias, de linguagens, de humanidades. Esse homem curvo carrega nos ombros o peso dos mapas traçados que, graças a Deus, desembocaram neste mar da linguagem, nessa fonte, a poesia.

            Poesia, essa de Chagas, que vem instaurar o topos do imaginário ludovicence e se constituir numa das grandes vertentes da poesia maranhense atual, juntamente com a poesia mais subjetiva e visceral de Nauro Machado, a poesia do cotidiano social de Ferreira Gullar e outras tendências, digamos, contemporâneas/experimentais.

Ou seja: essa vinda não foi gratuita. O poeta, com suas vivências e experiências e seu encontro fascinante, carregando uma outra “fôrma”, vem tornar-se o fundador de uma poética, abrir as janelas do não-visto ou não cantado para criar um outro olhar do maranhense sobre seus próprios telhados, sobre os canhões do silêncio que explodem secularmente no tempo da cidade, mas que ninguém ainda fez bradar, não com a mesma rima, não com o mesmo empenho.

            A poesia de José Chagas vem repor, pelo imaginativo poético, a geografia imaginária que nos falta, a percepção das entranhas da cidade, de sua arquitetura e população, de seu desterro no tempo, de seus bichos, gatos, ratos, baratas, esse convívio universal que os compêndios de história e da mitologia da cidade não pode mostrar, porque inscrita numa linguagem outra, não a linguagem que une o centro do olho ao centro da alma.

           

            O encontro proposto na poesia de Chagas, por outro lado, não é apenas um encontro de formas poéticas e de experiências de vozes e espaços diferentes. Não é tampouco a instauração de uma paisagem poética, figurativa ou pitoresca. É a densidade do corpo humano e do dizer humano mais profundo e radical  mediando uma cronotopia, isto é, a junção o tempo e do espaço. Cronotopia não (apenas) naquele sentido proposto Bakhtin, como característica de toda arte, mas no sentido de que o poeta tenta recuperar o arcaico inscrito na cosmologia da cidade para fazê-la soprar os anseios, as vozes perdidas do que ela conserva do tempo, dos seus becos e telhados que fazem o homem questionar o sentido de sua própria existência, sua condição primordial.

            Eis por que o poeta, em sua poesia mais recente, nos lança um lamento reflexivo e dolorido, quase amargo, sobre o estado da cidade que o recebeu, São Luís do Maranhão:

                       

Patrimônio de quem? De ti, de mim?

                                Patrimônio de toda a humanidade

                                Herança de barata, de cupim?

Ou chão que a própria história desinvade(...)?

(Os Azulejos do Tempo – Patrimônio da humana idade, 1999)

Ou, em outro poema:

 

Preciso é que se pense São Luís,

e não viver só de memorizá-la,                             

que ela não é somente o que se diz,

mas o que oculto está por traz da fala

(idem)
 

A poesia de José Chagas vem sublimar essa cidade e transformá-la numa outra realidade além da que contemplamos. O poeta, para utilizar uma palavra da moda, do jargão economista, veio “agregar valores” a esta cidade que nem sempre reconhece esse papel fundamental empreendido culturalmente por todos os seus poetas, pela gente que a canta de todas as formas, do mais humilde ao mais letrado, tornando-a, pelo encanto e pelo trabalho da poesia, uma cidade outra, que ressoa em nós.

Vemos, assim, na poesia de José Chagas, um lugar profundamente humano, um lugar povoado, um bairro, uma cidade quadricentenária poeticamente erguida, e às vezes a solidão do poeta, ao pé de cujo mirante podemos nos assentar sem dizer palavra, apenas com a boa sensação de tê-lo encontrado.

domingo, 25 de novembro de 2012

SÃO LUÍS 400 ANOS


Poema barroco para São Luís
 

                                                                     Antonio Aílton

 
 
 
Senhor, castigai o ladrão e o puto
que a esta cidade rouba e degenera
Faz-lhe ir pagar no inferno seu tributo
por 400 anos de miséria
 
Ou ainda mais, se o mais for culto
ao muito analfabeto que governa
a cuja voz mantém numa caverna
espoliada de seu gozo absoluto
 
Perdoai, Senhor, toda a mudez
da língua que se cala e bebe a pinga
já contaminada da venérea
 
Pois cada um de si por sua vez
quereria continuar o logro e a íngua
por 400 anos de miséria

 



 
 

ANOITECER ANÓDINO EM SÃO LUÍS DA AMÉRICA DO SUL
                                                         
                                                                                                                                Antonio Aílton
 
A noite se estende sobre os becos da cidade
como um paciente claustrofóbico numa maca do Socorrão
rota iluminação gasosa e pálida
jungindo por séculos o nariz das aldravas

 
A noite vem como um pedinte num ônibus
e poetas que escrevem versos para não roubar
uma gestante vai atravessar a rua, e corre
pedindo a deus que lhe dê um engenheiro
ao invés de mais um imprestável para infestar a cidade

 
a noite, mais uma, que esta sandia cidade guarda assombrada
como uma velha catando suas escaras na sacada
despenca sobre nós como uma catarata de bengala
ou uma paulada num gato, onde ausentes as crianças rodam
   no escarro

 
a noite despenca como uma lua na placa redonda da Pousada Saramanta
abandonando corpos desolados no sabão caseiro da Pousada Central
a lua é como essa gente que bota placa em suas ruínas estupradas
e vai se bandear para onde tem botox, gorjeta e capital

 
a noite desce desdentada como um fluido
para um fim de festa num canto qualquer da América Latina
Zé Luís ergue um copo na Praia Grande em São Luís do Maranhão
Ébrios como ele, toscos como ele
nossos olhos também brilham inocentes
como um figurino de muitos anos antes deste século
quando reencontramos numa bóia a história dos nossos fragmentos



sexta-feira, 6 de abril de 2012

LAMENTO DA LUA NA PROVÍNCIA [tradução minha]

Jules Laforgue
                         
Ah, a bela e plena Lua,
Gorda como uma fortuna!

Uma sirene soa distante.
Um passante! É o senhor Ajudante;

Um cravo toca sem graça.
Esquivo, um gato cruza a praça;

É a província que dorme
Bocejando seu último acorde.

Um piano fecha sua janela
- Que hora será esta?

Calma lua, que exílio!
Cumpre assim o teu desígnio.

Lua, ó lua diletante,
Em seu vagar hesitante.

Tu viste ontem o Missouri
E os arredores de Paris,





Os golfos azuis da Noruega,
Os pólos, os mares – que mais?

Lua feliz, tu assim te vais
A esta hora, arrastando o séquito

Do teu comboio de núpcias!
Se vão partindo para a Escócia.

Que  universo, se, neste inverno,
Ela ficasse em meus versos!

Lua, Luna vagamunda,
Encontro-te ronda rotunda.

Ó noites ricas! Em mim recolho
Uma nesga de província.

E a lua, velha balofa,
Põe algodão nas orelhas.