Poema barroco para São Luís
Antonio Aílton
que a esta cidade rouba e degenera
Faz-lhe ir pagar no inferno seu tributo
por 400 anos de miséria
Ou ainda mais, se o mais for culto
ao muito analfabeto que governa
a cuja voz mantém numa caverna
espoliada de seu gozo absoluto
Perdoai, Senhor, toda a mudez
da língua que se cala e bebe a pinga
já contaminada da venérea
Pois cada um de si por sua vez
quereria continuar o logro e a íngua
por 400 anos de miséria
ANOITECER ANÓDINO EM SÃO LUÍS DA
AMÉRICA DO SUL
Antonio Aílton
A noite se estende sobre os becos da cidade
como um paciente claustrofóbico numa maca do Socorrão
rota iluminação gasosa e pálida
jungindo por séculos o nariz das aldravas
e poetas que escrevem versos para não roubar
uma gestante vai atravessar a rua, e corre
pedindo a deus que lhe dê um engenheiro
ao invés de mais um imprestável para infestar a cidade
como uma velha catando suas escaras na sacada
despenca sobre nós como uma catarata de bengala
ou uma paulada num gato, onde ausentes as crianças rodam
no escarro
abandonando corpos desolados no sabão caseiro da Pousada Central
a lua é como essa gente que bota placa em suas ruínas estupradas
e vai se bandear para onde tem botox, gorjeta e capital
para um fim de festa num canto qualquer da América Latina
Zé Luís ergue um copo na Praia Grande em São Luís do Maranhão
Ébrios como ele, toscos como ele
nossos olhos também brilham inocentes
como um figurino de muitos anos antes deste século
quando reencontramos numa bóia a história dos nossos fragmentos