domingo, 25 de novembro de 2012

SÃO LUÍS 400 ANOS


Poema barroco para São Luís
 

                                                                     Antonio Aílton

 
 
 
Senhor, castigai o ladrão e o puto
que a esta cidade rouba e degenera
Faz-lhe ir pagar no inferno seu tributo
por 400 anos de miséria
 
Ou ainda mais, se o mais for culto
ao muito analfabeto que governa
a cuja voz mantém numa caverna
espoliada de seu gozo absoluto
 
Perdoai, Senhor, toda a mudez
da língua que se cala e bebe a pinga
já contaminada da venérea
 
Pois cada um de si por sua vez
quereria continuar o logro e a íngua
por 400 anos de miséria

 



 
 

ANOITECER ANÓDINO EM SÃO LUÍS DA AMÉRICA DO SUL
                                                         
                                                                                                                                Antonio Aílton
 
A noite se estende sobre os becos da cidade
como um paciente claustrofóbico numa maca do Socorrão
rota iluminação gasosa e pálida
jungindo por séculos o nariz das aldravas

 
A noite vem como um pedinte num ônibus
e poetas que escrevem versos para não roubar
uma gestante vai atravessar a rua, e corre
pedindo a deus que lhe dê um engenheiro
ao invés de mais um imprestável para infestar a cidade

 
a noite, mais uma, que esta sandia cidade guarda assombrada
como uma velha catando suas escaras na sacada
despenca sobre nós como uma catarata de bengala
ou uma paulada num gato, onde ausentes as crianças rodam
   no escarro

 
a noite despenca como uma lua na placa redonda da Pousada Saramanta
abandonando corpos desolados no sabão caseiro da Pousada Central
a lua é como essa gente que bota placa em suas ruínas estupradas
e vai se bandear para onde tem botox, gorjeta e capital

 
a noite desce desdentada como um fluido
para um fim de festa num canto qualquer da América Latina
Zé Luís ergue um copo na Praia Grande em São Luís do Maranhão
Ébrios como ele, toscos como ele
nossos olhos também brilham inocentes
como um figurino de muitos anos antes deste século
quando reencontramos numa bóia a história dos nossos fragmentos